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Quarta-feira, 11 de julho de 2018

Brasil põe metas do clima em risco, diz estudo

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Pesquisa publicada na revista "Nature Climate Change" mostra como retrocessos ameaçam meta brasileira no Acordo de Paris. Com desmatamento, custo para cortar emissões em outros setores pode atingir US$ 2 trilhões.

Um estudo assinado por dez pesquisadores brasileiros na renomada revista Nature ClimateChange alerta: o enfraquecimento da política ambiental orquestrada pelo governo em troca de apoio político pode minar os compromissos que o Brasil assumiu no Acordo de Paris, pacto global contra as mudanças climáticas.

Segundo a análise, a forma como país vem sendo governado estimula o aumento do desmatamento, o que ameaça as metas brasileiras estipuladas no acordo, firmado em 2015 para limitar o aquecimento do planeta a 2°C até o fim deste século.

"O presidente do Brasil aprovou medidas e decretos que diminuíram as exigências para licenciamento ambiental, suspendeu a ratificação de terras indígenas, reduziu o tamanho de áreas protegidas e facilitou a legalização de terras griladas", diz o estudo, sem citar Michel Temer pelo nome.

O impacto dessa política pode ser medida diretamente na emissão de CO2, o maior vilão do aquecimento global, já que a destruição das florestas libera grandes volumes desse gás na atmosfera.

Em 2016, por exemplo, dados do Seeg (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa) mostraram que, devido à devastação florestal medida no ano anterior, as emissões brasileiras subiram 8,9%.

"O estudo mostra que o país tem uma decisão a tomar. O Brasil quer mesmo cumprir o Acordo de Paris?", pontua Raoni Rajão, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e um dos autores do estudo.

Para prever o que pode acontecer no futuro próximo, os pesquisadores usaram dados históricos sobre desmatamento da Floresta Amazônica e do Cerrado, atrelando as informações a decisões políticas tomadas entre 2005 e 2017 que estimulam o aumento ou queda da degradação ambiental.

No pior cenário futuro, de abandono das políticas de comando e controle, a taxa de desmatamento voltaria ao patamar recorde de destruição já registrada pelo sistema de monitoramento. Na Amazônia, a área desmatada chegaria à casa dos 27 mil km2 em 2030 – ano em que o Brasil se comprometeu, no Acordo de Paris, a acabar com o problema.

O estudo trabalha ainda com cenários intermediários e de maior rigor no combate ao desmatamento e fortalecimento das políticas ambientais.

"Certamente, não estamos caminhando para o melhor cenário", opina Eduardo Viola, pesquisador da Universidade de Brasília (UnB). "Podemos ir de um cenário intermediário ao pior. Nesse último caso, o impacto das emissões do Brasil no mundo seria muito alto", alerta Viola, lembrando que o país ocupa o sétimo lugar no ranking de poluidores.

Segundo o artigo, as emissões por desmatamento no pior cenário seriam de 23.1 gigatoneladas de CO2 entre 2010 e 2030. Estudos recentes mostram que, para que a temperatura média global não suba mais que 2°C, o "orçamento" de carbono do Brasil até 2050 não poderia ultrapassar 24 gigatoneladas de CO2 até 2050.

"O que tem de mais perverso aqui é o poder extraordinário da bancada ruralista. O agronegócio, que representa 20% do PIB, fez uso importante de tecnologia no campo, mas não ao que se refere à redução de emissões de CO2 e ao avanço da agricultura sobre área de desmatamento", critica Viola. Dados do Seeg apontam um aumento de 1,7% das emissões do setor em 2016.

No estudo, os pesquisadores tentaram prever o que o país deveria fazer se decidisse, mesmo com a alta do desmatamento, cumprir o Acordo de Paris. A resposta pode custar caro para setores produtivos: até 2 trilhões de dólares.

"Setores como a indústria e energia terão que reduzir muito mais as suas emissões para a conta fechar. Ou seja, serão obrigados a adotar tecnologias caras que sequer estão disponíveis no mercado, ou ainda comprar crédito de carbono de outros países", cita alguns exemplos Raoni Rajão.

Na visão de Rajão, o Brasil não tem condições políticas no cenário internacional de "ser igual ao Trump", ou seja, abandonar formalmente as metas ratificadas no Acordo de Paris. Por outro lado, diz, ao não honrar os compromissos internacionais, o país pode "virar uma Venezuela", país que, entre negociadores, é conhecido por não cumprir acordos internacionais.

"Com China e União Europeia alinhadas para cumprir o Acordo de Paris, o Brasil pode até sofrer sanções caso não faça o mesmo", sugere Rajão. A China, maior emissor de CO2 global, é também a principal parceira comercial do Brasil.

Ainda não se sabe se os países que ratificaram o Acordo de Paris poderão sofrer sanções caso não cumpram suas metas. A Conferência do Clima de 2018 ainda deverá finalizar o "livro de regras" do pacto para barrar as mudanças climáticas, que entra em vigor a partir de 2020.