Quinta-feira, 14 de março de 2019

Cuidado com as boas intenções, elas também podem piorar um conflito

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Uma pergunta que costumamos fazer com certa frequência perante situações indesejadas é: o que fazer? Quando em um relacionamento ou em um grupo surge um conflito, o primeiro impulso é pensar no que se deve fazer. Mas na maioria das relações e na maioria dos trabalhos existe uma coisa mais importante que isso: saber o que não se deve fazer.

Há pouco mais de um século e meio, o médico Ignác Semmelweis trabalhava no hospital Geral de Viena. Naquela época, mais de 13% das mulheres que davam à luz na ala obstétrica morriam em seguida de febre puerperal, mas esse não era um problema exclusivo daquele centro. Entre 1746 e 1774, no hospital Hotel-Dieu de Paris, 58% das parturientes morreram. No mesmo período, a mortalidade no hospital Westminster de Londres chegou a 68%.

Ignác Semmelweis se rebelou diante da impassibilidade de seus colegas do hospital. Enquanto os demais médicos contemplavam sem mover um dedo a morte de centenas de mulheres depois do parto devido à febre puerperal, atribuindo-a ao frio, à umidade, à aglomeração das enfermarias obstétricas e inclusive à providência divina, Semmelweis decidiu procurar explicações e encontrar soluções. Por que tantas mulheres falecem de febre depois de terem parido sem problemas?, perguntava-se repetidamente. E se pôs a observar. O que ele viu? Que a mortalidade era muito maior nas enfermarias atendidas por médicos que nas enfermarias atendidas por parteiras. Até as mulheres que davam à luz na rua morriam com menos frequência!

E observou também que a mortalidade era mais alta entre mulheres atendidas por médicos e residentes que se ocupavam delas depois de realizarem práticas de anatomia com cadáveres. Quando eram atendidas por parteiras, que faziam seu trabalho sem terem feito nenhuma tarefa forense, a mortalidade caía.

Foi então que Semmelweis concluiu que médicos e residentes transportavam algo infeccioso do necrotério para a ala obstétrica. Preparou uma solução de cloreto e convenceu-os a lavarem as mãos com ela. A terrível sangria de vidas em decorrência da febre puerperal terminou com uma simples lavagem de mãos. Estamos falando da assepsia.

Todo mundo está mais ou menos familiarizado com esse termo. Inclusive haverá quem pense ser ele aplicável única e exclusivamente à medicina, mas, em nossa relação com os outros, já nos perguntamos alguma vez se não seria a hora de começar a utilizar a assepsia emocional? Observamos suficientemente quais são as consequências de nossas palavras, de nossos comportamentos, de nossas atitudes, como fez o doutor Semmelweis em seu momento? Ou, como os colegas dele, assistimos impassíveis às consequências dos nossos atos, e para ficarmos tranquilos encontramos a causa sempre no outro, nunca em nós mesmos?

Há uma pergunta que deveríamos nos fazer, e provavelmente em alguns casos nos ajudaria a entender uma quantidade enorme de situações, e em outros nos ajudaria a evitá-las: o que tenho a ver com o que está acontecendo? Em numerosas ocasiões não temos consciência da importância de saber o que se deve ou não fazer. Amparados na boa vontade, achamos que ela basta para resolver o que for necessário e, caso não tenha sido o mais acertado, teremos agido com “boa intenção”. E assim, com a melhor das intenções, somos nós quem, com o propósito de ajudar, pioramos a situação, incorrendo na iatrogenia.

Iatrogenia é uma palavra derivada da grega iatrogénesis, formada por duas palavras: iatros, que significa “médico”, e gênese, que significa “criar”. Iatrogenia quer dizer “provocado pelo médico”. Encontramos sua origem no âmbito da medicina, mas em todas as profissões existe a possibilidade de sermos iatrogênicos. Quantos de nós não fomos em algumas situações testemunhas, e em outras prejudicados, por uma solução que em vez de melhorar a situação a piorou? Quem nunca aplicou o que pensava que seria a solução e terminou sendo um problema?