Terça-feira, 25 de junho de 2019

Mais do que raça! Futebol feminino tem árduo desafio pela frente no país

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Após a Seleção Brasileira se despedir da Copa do Mundo feminina de maneira dolorosa, em uma partida na qual não faltou luta, o futebol nacional volta agora suas atenções para uma outra batalha. Em meio a limitações de estrutura, de investimento e com espaço ainda precário para as categorias de base, jogadoras entram em campo em busca de novos rumos:

– Futebol feminino sempre foi isso. Sempre foi assim com raça e vontade. Mas a gente sabe que, falando de evolução, precisa de muito mais trabalho e planejamento. Isso fará diferença – afirmou Mônica, da Seleção Brasileira, à ESPN.

Meia da Seleção Brasileira na Olimpíada de 1996, Márcia Tafarel exige mudanças na CBF:

– Precisamos de profissionais competentes e capacitados e planos de desenvolvimento que oportunizem o surgimento de talentos. As desculpas são muitas, mas as ações são poucas.

Coordenador de Seleções Femininas da CBF, Marco Aurélio Cunha vê o problema na base:

– Nós damos estrutura. O que falta é investir em outros níveis. Clubes com camisa pesada não costumavam ter time de futebol feminino. Agora, desenvolveremos Seleção Sub-18.

Mesmo com a exigência da CBF de que clubes da Série A tenham um time feminino, a sensação é de que falta um longo caminho a percorrer:

– Surgiu maior oferta para as me-ninas e aumentou a competitividade. Porém, são poucos clubes que investem de verdade. Quase não temos trabalho de base, fundamental para nosso desenvolvimento. Isto reflete no nosso estilo de jogo e nas convocações da Seleção – detalhou a atacante do Flamengo, Flávia Giovanna.

Gerente do departamento de futebol feminino do Internacional (criado em 2017), Duda Luizielli prevê:

– Não será um retorno imediato. A França investiu quase dez anos, a Inglaterra faz um trabalho “de formiguinha”. Mas daqui a dois Mundiais, já devem surgir atletas de ponta.

Investimento nos clubes de Série A no futebol feminino só existiu nos últimos anos. Fomentação da base é recente (Rener Pinheiro / MoWA Press)

Categorias de base

A fomentação da base dos clubes só começou a existir nos últimos anos no futebol brasileiro. Jogadoras questionam que a inexistência deste trabalho inicial afetam o aprimoramento da qualidade técnica. Além disto, gerações passadas já começavam suas trajetórias entre as profissionais

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Calendário

O futebol feminino ainda carece de competições de nível nacional e estadual, mesmo com a obrigatoriedade de que clubes da Série A tenham uma equipe feminina. Contudo, a partir deste ano haverá uma mudança: a criação da Série A1, que englobará 36 clubes. O regulamento será o mesmo da elite (fase de grupos, quartas de finais, semifinais e final)

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Profissionalismo?

Outra queixa é a necessidade de uma profissionalização maior, com processos a longo prazo e levando pessoas competentes tanto na CBF quanto em outras federações. A conduta da entidade máxima do futebol nacional é alvo de questionamentos

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DependênciaA sensação de que a Seleção Brasileira tem ficado restrita a talentos individuais prossegue. Jogadoras como Marta, Cristiane e Formiga surgem como “chaves” da equipe canarinha

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Visibilidade

O apelo de maior espaço para as competições nacionais é pedido. Há a sensação de que o futebol feminino ganha evidência apenas quando ocorre a disputa dos Jogos Olímpicos ou da Copa do Mundo feminina

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PreparaçãoHá questionamentos da maneira como as jogadoras vêm se cuidando na Seleção Brasileira. Camisa 10, Marta “cobrou” as atuais jogadoras para saberem se valorizar e conseguir o desenvolvimento do seu futebol

Há muito a melhorar. Antes tínhamos a Seleção e não se conseguiu resultados. Aí, jogadoras tiveram a chance de ir para fora e as desculpas são as temporadas diferenciadas, não há como juntar o grupo. Existe muita desculpa na gerência e na técnica. Está ficando chato. Só temos talentos individuais. Quando vamos começar a jogar como grupo? A gerenciar o futebol com profissionalismo e competência, buscando ver o que está errado e nos voltando em prol de uma excelência?

COM A PALAVRA

Risco de talentos se perderem

DOROTÉIA DE SOUZA

Treinadora da Ponte Preta

A CBF e a FPF têm nos dado suporte. Mas alguns clubes não têm condições de investir em futebol feminino de maneira forte. Seria importante ter apoio de iniciativa privada. Já perdi muitos talentos porque não tinham condições financeiras de ir ao local do treino no clube em que trabalhei. Elas pagavam para jogar futebol.

Aqui na Ponte Preta, a Prefeitura nos ajuda. Mas também sinto que precisamos de uma visibilidade maior da mídia.

COM A PALAVRA

Momento ímpar para crescer

DUDA LUIZIELLI

Dirigente do Inter e ex-jogadora da Seleção

Com a obrigatoriedade de que os clubes de Série A tenham um time feminino, acredito que este seja um momento ímpar para o país crescer nesta área. O importante agora é termos visibilidade. Já há rivalidades tradicionais entre os clubes da Série A. Tivemos um Gre-Nal aqui, nós do Inter fomos cam-

peões gaúchos!

Mas é bom a mídia destacar que vai acontecer uma Série A1 (Segunda Divisão) do Brasileiro com 36 equipes. Tem de se voltar para clubes, não pensar só em futebol feminino em Olimpíada ou Copa do Mundo.